Custo de Capital em Perspectiva (Parte 2 de 2)


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Modelos de Risco: Custo de Capital em Perspectiva, e os Limites e Alternativas ao CAPM.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

Valuation e M&A: onde a teoria encontra a mesa de negociação

Como mencionado anteriormente, valuation é o processo de estimar o valor econômico de um ativo ou de uma empresa. No contexto de M&A, essa etapa determina se um preço de aquisição é justificável e qual deve ser a base da negociação. Tentar conduzir operações de fusões e aquisições sem uma avaliação econômico-financeira bem fundamentada equivale a dirigir com os olhos vendados.

O método mais utilizado, o Fluxo de Caixa Descontado, depende diretamente da taxa de desconto apresentada na seção anterior, o WACC. Toda a arquitetura teórica descrita até aqui resulta, na prática de M&A, em um número que deve refletir o risco do fluxo de caixa projetado para embasar a decisão sobre avançar ou não com a aquisição ou investimento.

Essas premissas produzem efeitos concretos sobre a mesa de negociação:

  1. O beta de empresas comparáveis não é estável. Um equívoco recorrente em due diligence financeira é tratar o beta histórico de empresas do mesmo setor como parâmetro confiável, quando ele tende a se deslocar justamente nos momentos de estresse setorial, quando a decisão de M&A mais precisa de uma medida de risco confiável. A resposta prática de Damodaran a esse problema é o bottom-up beta. Em vez de estimar o beta da empresa-alvo por regressão individual (com erro-padrão elevado, sobretudo em empresas de capital fechado ou com histórico curto), calcula-se a média dos betas desalavancados de um conjunto amplo de comparáveis do setor e realavanca-se esse beta médio pela estrutura de capital-alvo da empresa avaliada[1]. O resultado é uma estimativa com erro-padrão substancialmente menor do que o de uma regressão isolada.
  2. O comprador de M&A normalmente não é diversificado. Este talvez seja o ponto de maior consequência para quem pratica M&A e o mais frequentemente ignorado. O CAPM parte da premissa de que o risco idiossincrático ou peculiar não é remunerado porque o investidor marginal mantém uma carteira diversificada. Para esse investidor, o risco específico desaparece por diversificação sem custo. O comprador típico de uma empresa fechada, seja um family office, uma holding patrimonial, um comprador estratégico ou um sócio operador, não se encontra nessa posição. Esse comprador costuma concentrar parcela relevante do seu patrimônio em um único ativo ilíquido.

Para esse comprador, a premissa central do CAPM simplesmente não se sustenta, e o risco idiossincrático deixa de ser irrelevante. A resposta de Damodaran é o total beta, o beta de mercado dividido pela correlação entre a empresa e o mercado, que captura o risco total, e não apenas a parcela não diversificável, complementado por descontos de iliquidez quando aplicável[2]. É neste ponto, mais do que em qualquer outro, que a tese desta seção, de que as premissas da MPT clássica falham justamente onde mais se aplicam, encontra sua demonstração mais concreta.

  1. Risco de ruína não aparece em análises de sensibilidade convencionais. Variar o WACC em mais ou menos um ponto percentual numa planilha de valuation não captura o que Taleb chama de risco de cauda, a perda de um cliente-chave, uma ruptura regulatória, a obsolescência do modelo de negócio da empresa-alvo. Esses eventos, de baixa probabilidade e alto impacto, raramente entram no modelo de Fluxo de Caixa Descontado, mas são frequentemente o que decide se uma aquisição foi um sucesso ou um fracasso.

As ferramentas adequadas para essa categoria de risco não são refinamentos do WACC, mas instrumentos distintos, como árvores de decisão, simulação de Monte Carlo com distribuições de cauda pesada, opções reais e, sobretudo quando a aquisição é alavancada, a modelagem explícita de covenants, serviço da dívida e cenários de estresse de liquidez do alvo pós-transação. Vale registrar que na prática de M&A, o risco de ruína raramente vem do beta, vem da alavancagem da própria aquisição.

  1. O ajuste dinâmico do prêmio de risco é indispensável em operações cross-border. Aqui entra a maior contribuição prática de Damodaran sobre o tema desta seção. Em vez de usar médias históricas de retorno de mercado de longuíssimo prazo, ele propõe calcular o Prêmio de Risco de Mercado (ERP) implícito, extraído dos fluxos de caixa descontados do índice de mercado corrente, tornando a taxa de desconto sensível às condições macroeconômicas vigentes no momento da transação, e não a uma média histórica potencialmente defasada.

Para aquisições internacionais, cada vez mais comuns em operações voltadas a mercados emergentes, Damodaran soma a esse cálculo o Country Risk Premium (CRP), ou Prêmio de Risco-País, tipicamente estimado a partir do spread de inadimplência soberana, ajustado pela volatilidade relativa entre ações e títulos do país[3].

Três cuidados práticos merecem destaque. Primeiro, a exposição da empresa ao risco país não é automaticamente total, pois depende de onde ela efetivamente gera receita e não apenas do local de sua sede. Segundo, riscos já refletidos nos fluxos de caixa projetados não devem ser adicionados novamente à taxa de desconto para evitar dupla contagem. Terceiro, e este ponto é especialmente relevante para quem costuma montar o CAPM com dados do mercado americano, fluxos de caixa projetados em reais exigem uma taxa de desconto construída em reais e não uma taxa em dólares aplicada a um fluxo nominal em moeda local. Nesse caso, a taxa livre de risco deve ter como proxy um título soberano em reais com duration compatível com o horizonte do fluxo, tipicamente uma NTN-B, e não o Treasury americano.

  1. Valor standalone, sinergias e prêmio de controle não devem ser descontados pela mesma taxa, nem confundidos com preço. O WACC relevante para descontar os fluxos da empresa-alvo (target) é o da própria empresa-alvo, não o do comprador. Descontar o fluxo do target à taxa de desconto do adquirente é outro erro clássico e recorrente que muitos investidores cometem e que distorce sistematicamente o resultado a favor ou contra a operação, a depender de qual das duas partes tem o perfil de risco mais alto.

Da mesma forma, sinergias de custo e sinergias de receita têm perfis de risco distintos entre si e diferentes do negócio-base, e descontá-las ao mesmo WACC do target subestima o risco da tese de sinergia, tipicamente mais incerta do que o fluxo de caixa operacional já estabelecido.

Por fim, é importante distinguir sempre valor e preço. Valor corresponde ao standalone mais sinergias, calculado com as taxas apropriadas a cada componente. Preço corresponde ao valor acrescido do prêmio de controle negociado. A confusão entre esses dois conceitos gera com frequência expectativas desalinhadas em uma mesa de negociação de M&A.

  1. Número não substitui narrativa. Provavelmente, a principal contribuição do professor sobre esse tema, para quem pratica M&A, é a de que o beta e a volatilidade histórica capturam apenas a variação de preços. O risco real de uma aquisição reside na probabilidade de a narrativa operacional da empresa alvo falhar, na ruptura do modelo de negócio, na obsolescência tecnológica e na falha de governança após a aquisição. A matemática do CAPM disciplina a discussão sobre custo de capital, mas não substitui a compreensão qualitativa do negócio que está sendo adquirido.

Recomendações práticas para o processo de M&A

A partir da tríade teórica formada por Markowitz e Sharpe no formalismo, Taleb no ceticismo estrutural e Damodaran no pragmatismo aplicado surgem cinco diretrizes práticas para quem avalia e estrutura transações corporativas.

Em primeiro lugar, é preciso tratar o CAPM como ponto de partida e não como veredito, de modo que ele discipline a estimativa do custo de capital e o resultado seja interpretado como uma faixa de valores plausíveis em vez de um número exato. Em segundo lugar, complemente a análise de sensibilidade tradicional com testes de cenário extremo, por exemplo simulando a perda de um cliente concentrador de receita, uma mudança regulatória abrupta ou a entrada de um concorrente disruptivo, eventos que uma variação linear do WACC não captura. Em terceiro lugar, ajuste o prêmio de risco de forma dinâmica, incorporando o ERP implícito e o Prêmio de Risco-País sempre que a transação envolver exposição internacional ou setorial atípica, mantendo a consistência entre a moeda do fluxo de caixa e a moeda da taxa de desconto. Em quarto lugar, quando o comprador não for diversificado, como ocorre com frequência em M&A privado, substitua o beta de mercado pelo total beta e trate o desconto por iliquidez como uma decisão explícita, escolhendo ajustar a taxa de desconto ou o valor final, mas nunca os dois ao mesmo tempo. Em quinto lugar, estruture mecanismos contratuais que limitem o risco de ruína sem eliminar o upside, usando earn-outs, cláusulas de ajuste de preço e contas escrow para proteger o capital investido, lembrando que earn-outs deslocam o risco no tempo e costumam gerar disputas sobre critérios contábeis durante o período de apuração.

A lição prática que emerge dessa síntese é a mesma que Damodaran costuma enfatizar ao citar George Box: todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis. Para quem estrutura ou avalia operações de M&A, a recomendação não é abandonar o CAPM ou a Teoria Moderna do Portfólio, e sim utilizá-los com plena consciência de suas premissas e limitações, complementando os modelos com ajustes dinâmicos de risco e com vigilância constante diante de eventos extremos.

Notas

1]Ver referência completa em Damodaran, Why Bottom-up Betas?

[2]Ver referência completa em Damodaran, Estimating Cost of Equity & Capital for Private Businesses.

[3]Ver referência completa em Damodaran, Estimating Equity Risk Premiums.


Referências Bibliográficas

BOX, George E. P.; DRAPER, Norman R. Empirical Model-Building and Response Surfaces. New York: Wiley, 1987.

BUFFETT, Warren. Declaração na Assembleia Anual de Acionistas da Berkshire Hathaway, 1996.

DAMODARAN, Aswath. Estimating Cost of Equity & Capital for Private Businesses. New York: NYU Stern School of Business, [s.d.].

DAMODARAN, Aswath. Estimating Equity Risk Premiums. New York: NYU Stern School of Business, [s.d.].

DAMODARAN, Aswath. Why Bottom-up Betas? New York: NYU Stern School of Business, [s.d.]. Notas de curso.

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