Infraestrutura, capital privado e desenvolvimento: os desafios da FBCF no Brasil.


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Infraestrutura, capital privado e desenvolvimento: os desafios da FBCF no Brasil.

A Formação Bruta de Capital Fixo no Brasil: uma década de transição e desafios estruturais.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

Ao longo da última década, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) no Brasil passou por transformações significativas que revelam não apenas mudanças conjunturais, mas também uma reconfiguração estrutural do modelo de investimento nacional.

A FBCF, que representa os investimentos em ativos fixos como máquinas, equipamentos e infraestrutura, é um dos principais indicadores da capacidade produtiva de um país. Entre 2015 e 2025, sua trajetória no Brasil foi marcada por oscilações, avanços setoriais e uma crescente participação do capital privado, especialmente estrangeiro, em detrimento do investimento público direto.

A eficiência na alocação de capital em projetos de investimento é um dos pilares do desenvolvimento econômico sustentável. Quando os recursos financeiros são direcionados de forma adequada, eles não apenas maximizam o retorno para investidores e empresas, mas também geram como consequência benefícios sociais amplos que se refletem na qualidade de vida da população.

Um investimento eficiente em infraestrutura melhora a logística do país, reduz gargalos produtivos e eleva a competitividade das empresas brasileiras no mercado global. Projetos bem planejados e executados mobilizam mão de obra, estimulam cadeias produtivas e fortalecem economias locais. Esse efeito multiplicador da alocação eficiente de capital contribui para a geração de empregos, ampliando a inclusão social e favorecendo a redução das desigualdades por meio do trabalho e geração de renda.

Alocar capital de forma eficiente não é apenas uma questão de retorno para os investimentos empresariais, mas também um mecanismo de transformação social. O financiamento privado de projetos, especialmente em infraestrutura, expansão industrial, tecnologia e inovação, proporciona ganhos de produtividade e permite a adoção de novos modelos de negócios, ampliando a diversidade econômica. Esses avanços melhoram o acesso da população ao consumo e elevam os níveis de qualidade de vida. A consequência é uma sociedade mais próspera e inclusiva, capaz de reduzir desigualdades e promover desenvolvimento sustentável.

Os impostos exercem influência negativa sobre a dinâmica dos investimentos privados, pois reduzem a capacidade de investimento, comprometem a rentabilidade esperada dos projetos e diminuem a disponibilidade de capital para reinvestimento. Uma carga tributária elevada ou complexa, que direciona parcela significativa dos recursos das empresas ao pagamento de tributos, somada à burocracia e à instabilidade regulatória, restringe os recursos destinados à expansão produtiva, à inovação e à infraestrutura. Os impostos limitam, portanto, a capacidade de investimento privado de longo prazo e o incentivo econômico para as empresas assumirem riscos em setores estratégicos.

Na última década, a carga tributária sobre investimentos no Brasil oscilou entre 31% e 33% do PIB, apresentando tendência de crescimento nos anos mais recentes. Houve retração em períodos de crise, como em 2015–2016 e em 2020, seguida de retomada gradual, que culminou em 2024 com o índice de 32,32% do PIB. Em 2025, novas medidas fiscais foram anunciadas, ampliando ainda mais o peso da tributação sobre os investimentos.

O Protagonismo do Investimento Privado.

A principal mudança observada nos investimentos ao longo dos últimos anos foi o aumento contínuo da participação privada na composição da FBCF. Em 2015, o setor privado respondia por cerca de 68% dos investimentos fixos, proporção que avançou para quase 75% em 2025. Essa tendência evidencia a transição do protagonismo estatal para um modelo descentralizado e claramente mais eficiente, no qual empresas privadas, nacionais e estrangeiras, assumem papéis estratégicos na expansão da infraestrutura.

A retração fiscal do setor público, agravada por sucessivas crises políticas e econômicas, com restrições orçamentárias crescentes, abriu espaço para que o capital privado ocupasse áreas antes dominadas pelo Estado, como energia, saneamento e transportes. Esse movimento tem consolidado o investimento privado como o verdadeiro responsável pelo desenvolvimento econômico nacional.

Esse movimento foi acompanhado pela expansão das concessões e das parcerias público-privadas (PPPs), especialmente após a aprovação de marcos regulatórios setoriais, como o novo marco legal do saneamento em 2020. A crescente confiança regulatória e a abertura de mercado estimularam a entrada de fundos internacionais em setores de alta demanda e retorno, como energia renovável, telecomunicações e logística. Estima-se que o capital estrangeiro tenha representado entre 15% e 20% da FBCF ao longo da década, com destaque para os anos mais recentes, quando os aportes externos se intensificaram diante dos grandes projetos de infraestrutura e da atratividade dos ativos brasileiros.

A composição setorial da FBCF também revela mudanças significativas ao longo da última década. Os setores de energia elétrica, transportes, telecomunicações e saneamento concentraram a maior parte dos investimentos em infraestrutura. A energia liderou, com cerca de 35% da FBCF acumulada, impulsionada por projetos de geração solar e eólica e pela expansão da rede de transmissão. Em seguida vieram os transportes, com 25%, refletindo aportes em rodovias, ferrovias e portos. Telecomunicações e saneamento, com 15% e 10% respectivamente, apresentaram crescimento consistente, especialmente após avanços regulatórios e tecnológicos. Já o agronegócio, embora com participação menor (8%), manteve investimentos relevantes em armazenagem, irrigação e logística rural, reforçando sua importância para a economia nacional.

Apesar dos avanços, o Brasil ainda investe abaixo do necessário para superar seus gargalos históricos. Em 2025, os investimentos em infraestrutura devem alcançar cerca de 2,21% do PIB, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), enquanto o ideal seria próximo de 4%, patamar considerado mínimo para garantir a modernização e a expansão da infraestrutura nacional. Essa lacuna reforça a necessidade de ampliar a capacidade de financiamento, aumentar a eficiência dos projetos e assegurar que os investimentos atendam às demandas sociais e regionais do país.

A predominância do capital privado em projetos de investimento é extremamente positiva, sobretudo em função da sua melhor eficiência na alocação do capital, dinamismo e capacidade de inovação. Esse protagonismo requer atenção especial e constante à regulação e aos riscos de longo prazo, pois o ambiente nacional ainda apresenta elevado nível de incerteza.

A Formação Bruta de Capital Fixo no Brasil no Brasil é sustentada por uma composição de fontes de capital que combina eficiência privada e inovação financeira. Atualmente, é financiada por recursos próprios das empresas, crédito bancário, mercado de capitais (debêntures, fundos de investimento, FIDCs, Fiagros e fundos imobiliários), além de aportes públicos via BNDES e parcerias público-privadas (PPPs).

O mercado de capitais tem ganhado relevância no financiamento dos investimentos privados, impulsionado pela reorientação do financiamento público, e consolidou-se como um dos principais provedores de recursos para a economia real. A composição atual evidencia a crescente participação do setor privado e do capital estrangeiro no financiamento de projetos no país. Tanto o mercado de capitais quanto as parcerias público-privadas ampliaram a diversidade dos instrumentos de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva de crédito bancário e de recursos públicos. Entretanto, os projetos de investimento ainda enfrentam desafios significativos, como a elevada carga tributária e o alto custo do crédito.

Os juros altos limitam a capacidade de investimento, enquanto os períodos de queda estimulam novos projetos e ampliam a participação privada na economia. Nos últimos dez anos, a relação entre investimentos e taxas de juros no Brasil foi marcada por ciclos de expansão e retração. Entre 2015 e 2016, a Selic alcançou níveis superiores a 14% ao ano, em resposta à crise econômica e às pressões inflacionárias daquele período. Esse cenário encareceu o crédito, desestimulou investimentos produtivos e tornou o custo de capital proibitivo, inviabilizando diversos projetos.

A partir de 2017, iniciou-se um ciclo de queda gradual dos juros, que atingiram o menor nível histórico em 2020, em razão da crise sanitária, chegando a 2% ao ano. Esse movimento favoreceu a retomada dos investimentos privados, especialmente em infraestrutura. Contudo, em 2021 e 2022, como consequência das distorções provocadas pelas medidas adotadas durante a crise, a Selic voltou a subir de forma acentuada para conter as pressões inflacionárias, retornando a patamares de dois dígitos e reduzindo o ritmo dos investimentos.

A taxa Selic iniciou 2023 em 13,75% ao ano e passou por cortes graduais, encerrando dezembro em 11,75%, em sinal de confiança do Banco Central na desaceleração da inflação e como estímulo à economia. Já em 2025, o ciclo voltou a ser de alta, refletindo pressões inflacionárias decorrentes do desequilíbrio fiscal e impondo a necessidade de uma política monetária mais restritiva. A Selic foi mantida em 15,00% ao ano, patamar considerado pelo Banco Central como essencial para assegurar a convergência da inflação à meta. O cenário atual aponta para a manutenção de juros elevados por um período prolongado.

Em síntese, a evolução da FBCF no Brasil entre 2015 e 2025 revela um país em transição: menos dependente do investimento público direto, mais aberto ao capital privado e estrangeiro, e com setores estratégicos assumindo maior protagonismo. Essa trajetória indica que o futuro dos investimentos estará cada vez mais condicionado à qualidade institucional, à estabilidade regulatória e à capacidade de planejamento de longo prazo. Trata-se de uma tendência que consolida um modelo de financiamento capaz de promover crescimento sustentável, modernização produtiva e desenvolvimento econômico.

Fontes:

Trading Economics (https://pt.tradingeconomics.com/brazil/gross-fixed-capital-formation).

Ipea (https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/tag/fbcf/).

Agência Brasil (https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-06/cni-estima-que-investimento-em-infraestrutura-vai-crescer-42-em-2025).

 

 

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