Infraestrutura, capital privado e desenvolvimento: os desafios da FBCF no Brasil.


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Infraestrutura, capital privado e desenvolvimento: os desafios da FBCF no Brasil.

A Formação Bruta de Capital Fixo no Brasil: uma década de transição e desafios estruturais.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

Ao longo da última década, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) no Brasil passou por transformações significativas que revelam não apenas mudanças conjunturais, mas também uma reconfiguração estrutural do modelo de investimento nacional.

A FBCF, que representa os investimentos em ativos fixos como máquinas, equipamentos e infraestrutura, é um dos principais indicadores da capacidade produtiva de um país. Entre 2015 e 2025, sua trajetória no Brasil foi marcada por oscilações, avanços setoriais e uma crescente participação do capital privado, especialmente estrangeiro, em detrimento do investimento público direto.

A eficiência na alocação de capital em projetos de investimento é um dos pilares do desenvolvimento econômico sustentável. Quando os recursos financeiros são direcionados de forma adequada, eles não apenas maximizam o retorno para investidores e empresas, mas também geram como consequência benefícios sociais amplos que se refletem na qualidade de vida da população.

Um investimento eficiente em infraestrutura melhora a logística do país, reduz gargalos produtivos e eleva a competitividade das empresas brasileiras no mercado global. Projetos bem planejados e executados mobilizam mão de obra, estimulam cadeias produtivas e fortalecem economias locais. Esse efeito multiplicador da alocação eficiente de capital contribui para a geração de empregos, ampliando a inclusão social e favorecendo a redução das desigualdades por meio do trabalho e geração de renda.

Alocar capital de forma eficiente não é apenas uma questão de retorno para os investimentos empresariais, mas também um mecanismo de transformação social. O financiamento privado de projetos, especialmente em infraestrutura, expansão industrial, tecnologia e inovação, proporciona ganhos de produtividade e permite a adoção de novos modelos de negócios, ampliando a diversidade econômica. Esses avanços melhoram o acesso da população ao consumo e elevam os níveis de qualidade de vida. A consequência é uma sociedade mais próspera e inclusiva, capaz de reduzir desigualdades e promover desenvolvimento sustentável.

Os impostos exercem influência negativa sobre a dinâmica dos investimentos privados, pois reduzem a capacidade de investimento, comprometem a rentabilidade esperada dos projetos e diminuem a disponibilidade de capital para reinvestimento. Uma carga tributária elevada ou complexa, que direciona parcela significativa dos recursos das empresas ao pagamento de tributos, somada à burocracia e à instabilidade regulatória, restringe os recursos destinados à expansão produtiva, à inovação e à infraestrutura. Os impostos limitam, portanto, a capacidade de investimento privado de longo prazo e o incentivo econômico para as empresas assumirem riscos em setores estratégicos.

Na última década, a carga tributária sobre investimentos no Brasil oscilou entre 31% e 33% do PIB, apresentando tendência de crescimento nos anos mais recentes. Houve retração em períodos de crise, como em 2015–2016 e em 2020, seguida de retomada gradual, que culminou em 2024 com o índice de 32,32% do PIB. Em 2025, novas medidas fiscais foram anunciadas, ampliando ainda mais o peso da tributação sobre os investimentos.

O Protagonismo do Investimento Privado.

A principal mudança observada nos investimentos ao longo dos últimos anos foi o aumento contínuo da participação privada na composição da FBCF. Em 2015, o setor privado respondia por cerca de 68% dos investimentos fixos, proporção que avançou para quase 75% em 2025. Essa tendência evidencia a transição do protagonismo estatal para um modelo descentralizado e claramente mais eficiente, no qual empresas privadas, nacionais e estrangeiras, assumem papéis estratégicos na expansão da infraestrutura.

A retração fiscal do setor público, agravada por sucessivas crises políticas e econômicas, com restrições orçamentárias crescentes, abriu espaço para que o capital privado ocupasse áreas antes dominadas pelo Estado, como energia, saneamento e transportes. Esse movimento tem consolidado o investimento privado como o verdadeiro responsável pelo desenvolvimento econômico nacional.

Esse movimento foi acompanhado pela expansão das concessões e das parcerias público-privadas (PPPs), especialmente após a aprovação de marcos regulatórios setoriais, como o novo marco legal do saneamento em 2020. A crescente confiança regulatória e a abertura de mercado estimularam a entrada de fundos internacionais em setores de alta demanda e retorno, como energia renovável, telecomunicações e logística. Estima-se que o capital estrangeiro tenha representado entre 15% e 20% da FBCF ao longo da década, com destaque para os anos mais recentes, quando os aportes externos se intensificaram diante dos grandes projetos de infraestrutura e da atratividade dos ativos brasileiros.

A composição setorial da FBCF também revela mudanças significativas ao longo da última década. Os setores de energia elétrica, transportes, telecomunicações e saneamento concentraram a maior parte dos investimentos em infraestrutura. A energia liderou, com cerca de 35% da FBCF acumulada, impulsionada por projetos de geração solar e eólica e pela expansão da rede de transmissão. Em seguida vieram os transportes, com 25%, refletindo aportes em rodovias, ferrovias e portos. Telecomunicações e saneamento, com 15% e 10% respectivamente, apresentaram crescimento consistente, especialmente após avanços regulatórios e tecnológicos. Já o agronegócio, embora com participação menor (8%), manteve investimentos relevantes em armazenagem, irrigação e logística rural, reforçando sua importância para a economia nacional.

Apesar dos avanços, o Brasil ainda investe abaixo do necessário para superar seus gargalos históricos. Em 2025, os investimentos em infraestrutura devem alcançar cerca de 2,21% do PIB, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), enquanto o ideal seria próximo de 4%, patamar considerado mínimo para garantir a modernização e a expansão da infraestrutura nacional. Essa lacuna reforça a necessidade de ampliar a capacidade de financiamento, aumentar a eficiência dos projetos e assegurar que os investimentos atendam às demandas sociais e regionais do país.

A predominância do capital privado em projetos de investimento é extremamente positiva, sobretudo em função da sua melhor eficiência na alocação do capital, dinamismo e capacidade de inovação. Esse protagonismo requer atenção especial e constante à regulação e aos riscos de longo prazo, pois o ambiente nacional ainda apresenta elevado nível de incerteza.

A Formação Bruta de Capital Fixo no Brasil no Brasil é sustentada por uma composição de fontes de capital que combina eficiência privada e inovação financeira. Atualmente, é financiada por recursos próprios das empresas, crédito bancário, mercado de capitais (debêntures, fundos de investimento, FIDCs, Fiagros e fundos imobiliários), além de aportes públicos via BNDES e parcerias público-privadas (PPPs).

O mercado de capitais tem ganhado relevância no financiamento dos investimentos privados, impulsionado pela reorientação do financiamento público, e consolidou-se como um dos principais provedores de recursos para a economia real. A composição atual evidencia a crescente participação do setor privado e do capital estrangeiro no financiamento de projetos no país. Tanto o mercado de capitais quanto as parcerias público-privadas ampliaram a diversidade dos instrumentos de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva de crédito bancário e de recursos públicos. Entretanto, os projetos de investimento ainda enfrentam desafios significativos, como a elevada carga tributária e o alto custo do crédito.

Os juros altos limitam a capacidade de investimento, enquanto os períodos de queda estimulam novos projetos e ampliam a participação privada na economia. Nos últimos dez anos, a relação entre investimentos e taxas de juros no Brasil foi marcada por ciclos de expansão e retração. Entre 2015 e 2016, a Selic alcançou níveis superiores a 14% ao ano, em resposta à crise econômica e às pressões inflacionárias daquele período. Esse cenário encareceu o crédito, desestimulou investimentos produtivos e tornou o custo de capital proibitivo, inviabilizando diversos projetos.

A partir de 2017, iniciou-se um ciclo de queda gradual dos juros, que atingiram o menor nível histórico em 2020, em razão da crise sanitária, chegando a 2% ao ano. Esse movimento favoreceu a retomada dos investimentos privados, especialmente em infraestrutura. Contudo, em 2021 e 2022, como consequência das distorções provocadas pelas medidas adotadas durante a crise, a Selic voltou a subir de forma acentuada para conter as pressões inflacionárias, retornando a patamares de dois dígitos e reduzindo o ritmo dos investimentos.

A taxa Selic iniciou 2023 em 13,75% ao ano e passou por cortes graduais, encerrando dezembro em 11,75%, em sinal de confiança do Banco Central na desaceleração da inflação e como estímulo à economia. Já em 2025, o ciclo voltou a ser de alta, refletindo pressões inflacionárias decorrentes do desequilíbrio fiscal e impondo a necessidade de uma política monetária mais restritiva. A Selic foi mantida em 15,00% ao ano, patamar considerado pelo Banco Central como essencial para assegurar a convergência da inflação à meta. O cenário atual aponta para a manutenção de juros elevados por um período prolongado.

Em síntese, a evolução da FBCF no Brasil entre 2015 e 2025 revela um país em transição: menos dependente do investimento público direto, mais aberto ao capital privado e estrangeiro, e com setores estratégicos assumindo maior protagonismo. Essa trajetória indica que o futuro dos investimentos estará cada vez mais condicionado à qualidade institucional, à estabilidade regulatória e à capacidade de planejamento de longo prazo. Trata-se de uma tendência que consolida um modelo de financiamento capaz de promover crescimento sustentável, modernização produtiva e desenvolvimento econômico.

Fontes:

Trading Economics (https://pt.tradingeconomics.com/brazil/gross-fixed-capital-formation).

Ipea (https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/tag/fbcf/).

Agência Brasil (https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-06/cni-estima-que-investimento-em-infraestrutura-vai-crescer-42-em-2025).

 

 

Gestão de Portfólios em M&A: Valor Gerado com IA


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Tecnologia Aplicada em M&A

Gestão de Portfólios em M&A: Valor Gerado com IA.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

 

Aplicação da IA na Gestão de Portfólios

A incorporação da inteligência artificial na gestão de portfólios oferece uma abordagem mais dinâmica e preditiva, transformando a maneira como as empresas planejam e executam transações corporativas. Neste contexto, a IA ganha espaço como uma ferramenta para otimizar a alocação de recursos e avaliar o desempenho, subsidiando decisões cada vez mais orientadas por dados.

Aplicar IA ao processo o torna mais eficiente. Acompanhar o desempenho das empresas ou ativos que compõem a carteira de investimentos, antecipar riscos e identificar o momento mais oportuno para movimentações estratégicas — tanto de investimento quanto de desinvestimento — possibilita acelerar resultados e elevar a qualidade das decisões, favorecendo a capturar valor de forma mais rápida e com menor exposição a riscos.

Entre suas principais aplicações da IA na gestão de portfólios, quatro áreas contribuem diretamente para a geração de valor e a tomada de decisão estratégica: (i) avaliação dinâmica de desempenho, (ii) Simulações de cenários e modelagem preditiva, (iii) Identificação de oportunidades de crescimento, e (iv) Otimização da alocação de capital.

A utilização de sistemas inteligentes para o monitoramento contínuo dos indicadores de desempenho (Key Performance Indicators – KPIs) das unidades de negócio sustenta decisões relacionadas à expansão, ao desinvestimento ou à reestruturação, assegurando maior capacidade de resposta às mudanças nos ambientes interno e externo.

Ferramentas de IA realizam simulações avançadas que incorporam a dinâmica de múltiplas variáveis — econômicas, regulatórias e competitivas —, oferecendo suporte a decisões mais bem fundamentadas em cenários de alta incerteza, além de antecipar riscos e permitir o teste de estratégias antes de sua implementação.

Outra aplicação da inteligência artificial está na identificação de oportunidades de crescimento. Ao analisar dados sobre tendências de mercado, comportamento dos consumidores e movimentações da concorrência, a IA revela possibilidades de investimento, parcerias estratégicas e aquisições. Essa leitura avançada do ambiente competitivo potencializa a capacidade de inovação e impulsiona a expansão dos negócios.

Os algoritmos avançados da IA contribuem para uma distribuição mais eficiente dos recursos, equilibrando risco e retorno entre diferentes ativos e empresas do portfólio. Orientada pela otimização da alocação de capital, a IA contribui para a definição de posições de investimento visando sustentar o crescimento e a geração de valor ao longo do tempo.

Benefícios da Adoção da IA em Transações Corporativas

A adoção de ferramentas de inteligência artificial em transações de fusões e aquisições não se limita a ganho de eficiência, mas proporcionam benefícios adicionais que podem redefinir o sucesso de uma transação.

Com a automação de tarefas devido a aplicação de IA, processos que antes levavam meses agora podem ser concluídos em questão de semanas, reduzindo a dependência de grandes equipes, diminuindo custos transacionais, e permitindo que empresas capitalizem oportunidades com maior rapidez.

O ganho em termos de escalabilidade é outro benefício com potencial transformador em operações de M&A. Empresas podem avaliar de forma mais efetiva múltiplos alvos simultaneamente, ampliando seu alcance estratégico. Além do ganho de velocidade e agilidade, redução de custos, e escalabilidade, a IA também minimiza a margem de erro humano no processo, com maior precisão analítica e análises mais robustas e confiáveis.

Outra aplicação relevante dos sistemas inteligentes está na detecção de riscos regulatórios e de compliance. O monitoramento contínuo de legislações locais e internacionais, aliado à antecipação de barreiras regulatórias ou riscos de antitruste, reduz significativamente a probabilidade de sanções e de atrasos na aprovação de transações.

Desafios e Considerações Éticas sobra a Aplicação de IA em M&A

Apesar dos significativos avanços da inteligência artificial, a integração da IA em processos de M&A traz desafios que não devem ser ignorados. Uma das questões mais debatidas é a governança algorítmica. É essencial assegurar que os modelos sejam transparentes, auditáveis e livres de vieses.

A adoção da IA, de forma geral, deve estar acompanhada de mecanismos robustos de governança. Embora a tecnologia promova eficiência e agilize o processo de M&A como um todo, ela também exige transparência, garantias e rastreabilidade, de modo que as decisões sejam tomadas com pleno conhecimento das premissas e possam ser auditadas sempre que necessário.

Garantir a segurança dos dados e das informações das partes envolvidas em uma operação é outro desafio crucial que não pode ser subestimado. O tratamento de informações sensíveis e documentos confidenciais exige protocolos rigorosos de proteção e conformidade regulatória. A utilização de ferramentas seguras e devidamente homologadas é essencial para evitar a exposição de dados corporativos, prevenir vazamentos de informações estratégicas e preservar, inclusive, a própria confidencialidade das negociações em andamento.

O fator humano permanece como um desafio relevante para a adoção mais ampla da inteligência artificial. A formação de profissionais capacitados para desenvolver, implementar e aplicar essas tecnologias é essencial para ampliar seu uso. A escassez de talentos com fluência em IA ainda limita sua aplicação nas empresas, sendo a ausência de competências específicas um dos principais entraves aos investimentos na área.

O Novo Papel da Liderança em Fusões e Aquisições com IA

Se o M&A sempre foi uma arte, a IA está adicionando uma nova paleta de cores, e os líderes que sabem pintar com ela estão assumindo o protagonismo nesta nova era.

Na nova era agêntica, os profissionais envolvidos em transações de M&A precisam desenvolver competências que vão além da análise financeira. A liderança aumentada por IA exige o desenvolvimento da capacidade de definir adequadamente problemas complexos e fluência tecnológica para estruturar as melhores soluções. Neste sentido, o papel do assessor de M&A está se transformando: de executor técnico para orquestrador de agentes inteligentes, fazendo uso de ferramentas tecnológicas poderosas de IA para suportar decisões estratégicas.

A inteligência artificial está se tornando uma realidade concreta no universo de M&A. Ela não substitui o julgamento humano, mas o amplifica. Ao automatizar tarefas repetitivas, oferecer insights preditivos e acelerar processos, a IA permite que os profissionais de M&A se concentrem no que realmente importa: criar valor sustentável, alinhar culturas e construir estratégias vencedoras, permitindo maior eficiência e produtividade.

Empresas que adotam uma abordagem proativa, investindo em governança, capacitação e integração tecnológica, estão se posicionando como “Frontier Firms”, termo cunhado pela Microsoft para definir organizações que operam com IA como uma camada avançada para decisões estratégicas. À medida que avançamos, as empresas que souberem combinar inteligência humana com inteligência artificial estarão mais bem posicionadas para navegar a complexidade das transações corporativas e capturar oportunidades transformadoras.

Uma década de M&A no Brasil


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Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

O mercado brasileiro de M&A passou por um ciclo completo na última década: desaceleração no meio da década de 2010, retomada a partir de 2017, pico histórico de transações em 2021 e normalização nos dois anos seguintes, com uma recomposição parcial em valor em 2024.

Pelos dados da TTR Data, o volume saiu da casa de ~1.000 transações anuais, entre 2014 e 2019, para um recorde em 2021 (2.560 deals), recuou em 2022 (2.119) e manteve patamar semelhante em 2023 (2.123), antes de cair para 1.674 em 2024. Em valores, o agregado acompanhou essa curva, com auge em 2021 (~R$ 476 bi), arrefecimento em 2022 (~R$ 325 bi), nova queda em 2023 (~R$ 217 bi) e recuperação em 2024 (~R$ 260 bi), sempre considerando apenas operações com valores divulgados.

A evolução setorial do M&A no Brasil entre 2014 e 2024 evidencia a digitalização como principal motor das operações. Tecnologia — englobando internet, software e serviços de TI — deixou de ser coadjuvante para assumir a liderança entre 2020 e 2022, impulsionada por e-commerce, meios de pagamento, SaaS, soluções de dados e Inteligência Artificial (AI).

O setor de Saúde manteve crescimento constante, com consolidação hospitalar e expansão de laboratórios, operadoras e healthtechs. Energia e Infraestrutura alternaram picos ligados a privatizações, concessões e reorganizações de portfólios, ganhando espaço em 2023 e 2024 com o aumento do interesse por ativos defensivos.

Serviços Financeiros também se destacaram, reunindo bancos, corretoras, meios de pagamento e fintechs, combinando consolidação tradicional e disrupção tecnológica. Imobiliário & Construção permaneceu ativo em operações com incorporadoras, shoppings, ativos logísticos e empreendimentos comerciais, acompanhando ciclos de crédito e investimento. Já Varejo & Bens de Consumo — de redes de lojas a alimentos, bebidas e moda — manteve relevância, refletindo movimentos de expansão, reposicionamento e diversificação de portfólio.

Os compradores estratégicos dominaram as transações ao longo da última década, ampliando a sua fatia nos anos recentes, à medida em que fundos de Private Equity se tornaram cada vez mais seletivos com juros altos e custo de capital pressionado seu modelo de negócio. O capital doméstico prevaleceu ao longo deste período; fluxos cross-border ou transfronteiriços mostraram sensibilidade ao câmbio, risco-país e aos ciclos globais de liquidez. Geograficamente, o estado de São Paulo concentrou a maior parte das transações observadas, seguido por polos industriais e de serviços no Sul e Sudeste.

Ao longo da década, diferentes fatores moldaram os ciclos de M&A no Brasil. A combinação de juros relativamente mais baixos e uma forte liquidez global foi determinante para o recorde observado em 2021, enquanto o subsequente aperto monetário reduziu o apetite por risco, comprimindo tanto o volume quanto o porte médio das operações.

O câmbio também exerceu papel relevante: períodos de desvalorização do real, aliados à compressão de múltiplos, abriram janelas de oportunidade para compradores estratégicos e investidores de longo prazo, que aproveitaram valuations mais atrativos.

No campo microeconômico e regulatório, agendas de concessões, privatizações e novos marcos setoriais — especialmente em energia, saneamento e saúde — impulsionaram megadeals e fomentaram polos regionais de transações.

A transformação digital também se consolidou como um vetor transversal de produtividade e crescimento. A digitalização de processos, a adoção de inteligência artificial e a busca por eficiência operacional passaram a sustentar teses de investimento em praticamente todos os segmentos econômicos, reforçando o protagonismo da tecnologia no mercado de M&A.

A última década de M&A no Brasil pode ser categorizada em oito fases, cada qual marcada por determinadas condições macroeconômicas e setoriais, com transações emblemáticas que ilustram seu caráter específico.

2014–2015
Sob forte desaceleração econômica e instabilidade política — refletidas no déficit fiscal crescente e na taxa básica de juros da economia (Selic) acima de 11% ao ano — o mercado manteve cerca de 1.000 transações anuais. Compradores estratégicos aproveitaram valuations pressionados em setores consolidados, sobretudo energia, telecomunicações e serviços financeiros. Em abril de 2014, a aquisição da GVT pela Telefónica, por R$ 22,5 bilhões, exemplificou essa dinâmica oportunística.

2016
Em meio ao início do governo Temer e à perspectiva de reformas fiscais e trabalhistas, o ambiente recuperou gradualmente o otimismo. A Selic iniciou uma trajetória descendente e o crédito corporativo expandiu-se, impulsionando consolidações nos segmentos de saúde, tecnologia e infraestrutura. A compra de 66% do capital da XP Investimentos pelo Itaú Unibanco, por R$ 3,6 bilhões, impulsionou a busca por plataformas de serviços financeiros integrados.

2017–2019
Com a taxa de juros recuando à casa dos 6% e expectativa de inflação ancorada, o Brasil voltou a atrair capital estrangeiro. Entre 2017 e 2019, o volume superou 1.200 operações por ano, com destaque para os setores do varejo, serviços financeiros e tecnologia. As privatizações de aeroportos e rodovias reforçaram o apetite internacional por ativos de infraestrutura no período. Em 2017, a JBS reforçou a sua presença no setor de laticínios ao adquirir a Vigor por R$ 5,7 bilhões.

2020
As medidas impostas pelo governo, sob o argumento de contenção da crise sanitária global, levaram a uma queda abrupta nos negócios em geral, mas no segundo semestre a economia começou a reagir, após sucessivos cortes na Selic, que atingiu o patamar recorde de baixa e 2%, junto com pacotes de estímulo à economia. As transações no mercado de tecnologia e de saúde ganharam um impulso extraordinário para fazer frente às necessidades do período. A Magazine Luiza, por exemplo, adquiriu a Netshoes, por R$ 115 milhões, acelerando sua estratégia omnichannel.

2021
Em um ambiente de alta liquidez global e baixo custo de capital, com juros em patamares historicamente baixos, o país viveu o ano recorde de M&A: 2.560 deals que somaram cerca de R$ 476 bilhões em valor. A Brookfield Asset Management comprou a AES Tietê por R$ 5,1 bilhões, evidenciando o fluxo de grandes investidores em energia e infraestrutura, setores conhecidos como de capital intensivo.

2022
Com inflação acima de 10% e Selic subindo a 13,75%, o apetite por risco arrefeceu, o que refletiu no movimento de M&A: 2.119 transações e R$ 325 bilhões envolvidos. Ainda assim, operações de grande porte marcaram o ano, como a compra dos ativos móveis da Oi pela TIM, por R$ 16,5 bilhões, reforçando consolidação no setor de telecom.

2023
Com a manutenção da Selic em patamar elevado, e incertezas políticas em razão da mudança de governo, o volume estabilizou-se em 2.123 operações e os valores tiveram queda de 33%, para R$ 217 bilhões. Concessões e privatizações em rodovias e saneamento ganharam destaque em 2023. A CCR concluiu a compra da concessão das rodovias BR-163/262, ampliando seu portfólio de infraestrutura.

2024
O volume de negócios recuou 21% (1.674 transações), embora o valor agregado tenha subiu 20% (aprox. R$ 260 bilhões), refletindo uma quantidade menor de transações, mas de alto valor. A Auren adquiriu a AES Brasil por R$ 23 bilhões e o governo paulista vendeu 15% do capital da Sabesp à Equatorial por R$ 11,7 bilhões — operações que ilustram a sustentação do foco no mercado de energia renovável e saneamento.

2025
O momento atual indica uma trajetória de recuperação. De acordo com a PwC Brasil, entre janeiro e maio deste ano foram registradas 596 transações, um crescimento de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior, sinalizando um ambiente mais favorável para M&A, mesmo diante de desafios políticos e macroeconômicos persistentes, como fragilidade fiscal, inflação desancorada, juros elevados e volatilidade cambial. A TTR Data aponta uma elevação de 17% no valor agregado no período, refletindo o impacto de transações de grande porte ocorridas nos setores de infraestrutura, energia e consolidações corporativas estratégicas.

A composição setorial das operações até o momento reforça tendências estruturais. Tecnologia respondendo por 33% das transações, impulsionada por soluções digitais, inteligência artificial e serviços em nuvem. Consumo e Varejo (15%) e Automotivo (9%) também se destacaram, refletindo movimentos de consolidação e reposicionamento estratégico. Já Energia e Serviços Públicos corresponderam a 7,5% do total, beneficiados por investimentos em infraestrutura e pela transição para fontes renováveis.

No recorte por perfil de investidor, observa-se, nestes primeiros cinco meses de 2025, a predominância dos compradores estratégicos, responsáveis por cerca de 83% das operações, contra 17% de participação dos fundos de Private Equity, que representavam aproximadamente 20% do volume em 2024. A origem do capital confirma um mercado majoritariamente doméstico: 81% das transações foram conduzidas por empresas brasileiras, enquanto o investimento estrangeiro respondeu por 19%.

A expectativa para 2025 é de manutenção do ritmo de crescimento do volume de transações, com possibilidade de superar os números de 2023, desde que não ocorram choques macroeconômicos relevantes. Valuations atrativos, necessidade de ganho de escala e busca por inovação devem continuar impulsionando operações, especialmente em tecnologia, saúde e energia. Se confirmadas as projeções, 2025 poderá consolidar-se como um ano de retomada para o M&A no Brasil, combinando oportunidades estratégicas com a necessidade de gestão cuidadosa dos riscos.

A década deixa um mercado mais maduro, com pipelines setoriais claros, investidores experientes e maior disciplina de capital. A recomposição do valor agregado em 2024, apesar do menor volume, sugere reabertura para transações maiores em infraestrutura e energia, enquanto tecnologia mantém relevância — ainda que abaixo do pico observado entre 2021–2022. Entrando em 2025, o pano de fundo é de otimismo cauteloso: valuations seguem atrativos para estratégicos, e o retorno mais amplo de fundos dependerá de condições de financiamento e previsibilidade macro.

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