O Crescimento do Mercado de Crédito Estruturado e Riscos Associados


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O Crescimento do Mercado de Crédito Estruturado e Riscos Associados
O Caso “Master Capixaba”.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

Em apenas seis anos, o estoque de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) no Brasil se multiplicou por 17,5 vezes, os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) cresceram três vezes, e o patrimônio líquido dos Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs) avançou 42% apenas entre 2023 e 2024, atingindo o recorde de R$ 635,7 bilhões. Somando securitizadoras e FIDCs, o mercado já movimenta cerca de R$ 1,5 trilhão em estoque. O primeiro semestre de 2026 encerrou com R$ 361,8 bilhões em novas ofertas no mercado de capitais brasileiro, o melhor resultado da série histórica iniciada em 2012, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Os números evidenciam uma tendência consolidada e um histórico de crescimento consistente. O Brasil vem diversificando sua matriz de crédito, reduzindo a dependência tradicional dos bancos e permitindo que empresas captem recursos diretamente junto aos investidores. É o mercado cumprindo sua vocação de ampliar opções de investimento e oferecer formas mais eficientes de alocar a poupança nacional.

Esse otimismo, porém, convive com um sinal de alerta que merece ser exposto com a mesma clareza. O ano de 2025 encerrou‑se com o maior número de empresas em recuperação judicial (RJ) da série histórica da Serasa Experian: 977 processos abertos, envolvendo 2.466 CNPJs, uma alta significativa de 13% em relação a 2024 e o maior volume em dez anos. Agropecuária e serviços concentraram juntos cerca de 60% dos pedidos, evidenciando a fragilidade específica do setor agro diante do custo do crédito. Em paralelo, a recuperação extrajudicial, modalidade negociada diretamente com credores, anterior à via judicial, também disparou, saindo de 16 pedidos em 2021 para 84 em 2025, somando mais de R$ 109 bilhões em dívidas reestruturadas apenas em 2026, contra R$ 41,5 bilhões em 2024.

Três casos relevantes ilustram bem a dimensão do fenômeno. A Raízen protocolou, em março de 2026, o maior pedido de recuperação extrajudicial já registrado no país, buscando reorganizar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas, enquanto seu valor de mercado despencou de R$ 76,3 bilhões em 2021 para aproximadamente R$ 5,3 bilhões neste ano. No mesmo mês, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) também recorreu à recuperação extrajudicial para renegociar R$ 4,5 bilhões. Já no agronegócio, a AgroGalaxy, rede de distribuição de insumos agrícolas que atende mais de 30 mil produtores, teve seu plano de recuperação judicial homologado em 2025, envolvendo o reperfilamento de R$ 4,6 bilhões em dívidas contraídas durante um ciclo agressivo de aquisições financiadas a juros baixos, ciclo que se tornou insustentável assim que o custo do crédito disparou.

O quadro se repete, em outra escala, no bolso das famílias. Em fevereiro de 2026, 81,7 milhões de brasileiros estavam com o nome negativado, um aumento expressivo de 38% em dez anos, somando R$ 539 bilhões em dívidas em atraso e uma média de R$ 6.598 por pessoa inadimplente. Boa parte dessa pressão tem uma raiz comum, o ambiente econômico deteriorado e a consequente elevação do custo de capital. A Selic permanece em 14% ao ano, um dos patamares reais mais altos do mundo. No exterior, o ciclo de juros próximos de zero também ficou para trás, e o Federal Reserve mantém sua taxa entre 3,5% e 3,75%, enquanto o Banco Central Europeu opera perto de 2%. A diferença de patamar é enorme, mas a direção é a mesma, crédito mais caro por mais tempo em praticamente todo o mundo. Empresas e famílias que se alavancaram no ciclo de dinheiro farto de 2020–2021 agora pagam a conta, em um ambiente que também se mostra mais fértil para a captação de dívidas via operações estruturadas, como a que examinamos a seguir.

Um estudo de caso recente, em linhas gerais
Nos primeiros dias de agosto de 2026, a Apex Partners, uma das maiores plataformas de investimentos do país, sediada no Espírito Santo, com um ecossistema de 178 empresas e mais de R$ 17 bilhões em ativos sob influência ou gestão, afastou seu fundador e presidente, além do diretor financeiro, após uma investigação interna apontar supostas ‘inconsistências financeiras’. A presidência interina foi assumida por um dos sócios sêniores da casa.

Até 10 de agosto de 2026, não há condenação nem conclusão de auditoria externa, apenas indícios de uma possível crise financeira na empresa. A própria companhia sustenta que os valores em disputa correspondem a obrigações de longo prazo, e não a dívidas vencidas. O sócio fundador e então presidente manifestou‑se publicamente, colocando‑se à disposição das apurações. Formalmente, o que existe é apenas uma tutela cautelar concedida pela Justiça de Vitória, uma proteção patrimonial temporária, que não configura recuperação judicial, muito menos sentença. Escrevo sobre o caso neste momento inicial pelo que ele pode revelar sobre determinadas estruturas de risco no mercado de capitais brasileiro, e não como julgamento antecipado.

Os documentos apresentados até agora à Justiça pela companhia desenham um quadro que merece atenção de qualquer investidor. O passivo bruto soma R$ 985,6 milhões, enquanto a dívida líquida saltou de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026, mais que o dobro em apenas 18 meses. No primeiro semestre deste ano, o grupo contraiu cerca de R$ 300 milhões em novas dívidas, das quais 58% não resultaram em novos ativos. Desse passivo, R$ 452,1 milhões correspondem a debêntures emitidas por uma securitizadora chamada Rhino, garantidas por ações da própria Apex Partners e de sua subsidiária BRM Apex Investimentos, um penhor intragrupo, sem avaliação independente conhecida. Outros R$ 309,8 milhões foram captados de aproximadamente 1.600 clientes por meio de produtos que prometiam ‘cashback’ ou rendimento mínimo garantido.

O gatilho da crise foi uma posição relevante em ações da CVC. A Apex detinha cerca de 15,5% da companhia, vinculada a contratos que asseguravam 100% do CDI ou a valorização das ações, prevalecendo o maior retorno. Com a queda da CVC entre 30% e 38% no período, a equação ficou desbalanceada.

O banco BTG Pactual, responsável pela distribuição de produtos da Apex Partners, rompeu imediatamente o contrato de parceria e bloqueou os resgates de um fundo ligado ao grupo (BRM Carbyne, com R$ 160,5 milhões e 909 cotistas). Já a Secretaria da Fazenda do Estado do Espírito Santo (Sefaz‑ES) divulgou nota esclarecendo que nenhum recurso do Tesouro estadual ou do Fundo Soberano está exposto ao caso.

Dois sinais adicionais merecem atenção de quem acompanha o desenrolar do caso. O primeiro é a concentração de pedidos de resgate em fundos regulados ligados ao grupo, em que cerca de R$ 78,2 milhões estão programados entre 12 de agosto e 30 de setembro, período que coincide, não por acaso, com o prazo de 30 dias concedido pela Justiça para que a Apex apresente (ou não) um pedido formal de recuperação judicial. Se a pressão por resgates se mantiver nesse ritmo, o teste de liquidez pode ocorrer antes mesmo de qualquer decisão sobre a RJ. O segundo sinal, ainda não confirmado, seria uma possível renúncia do Banco Daycoval como administrador fiduciário de um dos fundos relevantes do grupo. Administradores fiduciários existem justamente para garantir uma camada de supervisão independente sobre a gestão dos fundos, e a saída de um administrador em meio a uma crise de confiança costuma ser interpretada pelo mercado como alerta, mesmo sem divulgação pública da motivação exata.

Há um padrão?
O que há de genuinamente instrutivo aqui não é apenas o caso específico da Apex Partners, mas o modus operandi que ele ilustra, um padrão que pode se repetir com preocupante regularidade no mercado de crédito privado brasileiro, dado o crescimento dessas novas estruturas. O apelido dado pelo mercado financeiro, ‘Master Capixaba’, em referência ao colapso do Banco Master em 2025, talvez não seja mera coincidência.

1. Garantia circular. Quando uma empresa oferece como garantia de sua própria dívida ações e participações de empresas do mesmo grupo, não está eliminando risco, mas pode, na verdade, estar apenas disfarçando. Das 178 empresas do ecossistema Apex Partners, 83 pertencem ao braço BRM Apex, justamente o mesmo utilizado como lastro das debêntures da Rhino. Nessa estrutura, não parece haver proteção real ao investidor, mas sim um espelho que reflete o próprio risco.

2. Rendimento prometido sobre renda variável. Nenhuma estrutura financeira legítima consegue garantir retorno fixo sobre um ativo de risco de mercado sem, em algum momento, socializar a perda entre os próprios investidores ou consumir caixa da gestora para honrar a promessa. Trata‑se de um modelo matematicamente insustentável no longo prazo, e é justamente isso que os 58% de ‘dívida nova sem ativo novo’ parecem indicar neste caso, capital tomado não para investir em novos ativos e crescer, mas para cobrir compromissos previamente assumidos.

3. Arbitragem regulatória. A Apex Partners não possui registro para atuar diretamente em mercados regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), conforme a própria entidade do mercado de capitais. Quem detinha autorização da CVM era a securitizadora parceira, a Rhino. Esse tipo de estrutura em camadas, com uma holding não regulada operando por meio de veículos regulados, não é ilegal em si, mas pode criar zonas cinzentas em que a fiscalização costuma chegar apenas depois do estrago.

4. Opacidade sobre o uso dos recursos captados. Talvez o ponto mais relevante para o investidor comum seja o fato de que, em veículos de dívida estruturada, como debêntures via securitizadora, FIDCs ou cotas com promessa de cashback, é frequentemente muito difícil rastrear onde o capital está efetivamente alocado e como está sendo utilizado. A assimetria de informação entre gestor e investidor, que já constitui um desafio central em qualquer sistema econômico, torna‑se nesses produtos estruturados um risco concreto e mensurável.

5. Dependência de rolagem contínua. Quando parte relevante da nova dívida captada pela estrutura não é alocada em ativos, isso normalmente significa que os recursos podem estar sendo usados para quitar obrigações anteriores, e não para expandir a operação. Esse padrão, de necessidade permanente de novas captações para cobrir compromissos passados, é estruturalmente frágil e funciona apenas enquanto o fluxo de capital novo supera as saídas, mas colapsa no instante em que as captações desaceleram ou a garantia perde valor. Não é preciso provar intenção fraudulenta para reconhecer o risco nesses casos, trata‑se de matemática de fluxo de caixa, não necessariamente de moralidade.

6. Proximidade com poder político local. Estruturas financeiras regionais de grande porte frequentemente cultivam proximidade com autoridades e figuras politicamente expostas. Isso, por si só, não configura irregularidade, mas pode ampliar o risco reputacional e a complexidade de qualquer processo de responsabilização, além de eventualmente se correlacionar com menor rigor de supervisão local. Cabe ao investidor perguntar sempre quem audita quem, e quem fiscaliza quem fiscaliza. Quis custodiet ipsos custodes? — traduzido como ‘Quem vigia os vigilantes?

O que isso significa para os investidores?
Não é necessário desconfiar de toda e qualquer securitizadora ou FIDC, isso seria descartar um mercado que, em sua maior parte, cumpre exatamente a função de oferecer liquidez e alternativas de financiamento fora do sistema bancário tradicional. A questão está em calibrar expectativas e agir com diligência, investigar os produtos financeiros, seus emissores, gestores e administradores antes de alocar capital.

Existe promessa de retorno garantido sobre ativo de risco? Se sim, questione como isso seria matematicamente sustentável. A garantia é externa e avaliada de forma independente, ou trata‑se de uma estrutura intragrupo? O emissor possui registro direto na CVM ou opera por meio de parceiro regulado? Há relatórios periódicos e auditados sobre o destino efetivo do capital captado? E, talvez a pergunta mais prática de todas, qual porcentagem do seu patrimônio está exposta a um único grupo, considerando múltiplos produtos diferentes, fundos, debêntures, cotas de participação, que parecem diversificados, mas na prática compartilham o mesmo risco de origem?

O crescimento do crédito estruturado brasileiro é, em essência, uma excelente notícia, sinal de um mercado de capitais que amadurece e se torna menos dependente do balanço dos poucos grandes bancos nacionais. Todo mercado em expansão acelerada atrai tanto capital produtivo quanto má alocação. Cabe ao investidor, e não apenas ao regulador, cultivar o hábito de analisar de onde vem o retorno esperado, em vez de se limitar a questionar apenas quanto ele rende.


Este texto trata de fatos ainda sob apuração judicial e investigação. Nenhuma pessoa foi condenada por qualquer irregularidade até a publicação, e a própria empresa contesta a interpretação de que os valores identificados representem dívida vencida. O objetivo deste artigo é educativo, ao analisar estruturas e padrões de risco no mercado de crédito privado brasileiro, não emitir juízo sobre responsabilidades individuais ainda não apuradas.


Fontes

Sobre o caso Apex Partners
• A Gazeta — Crise na Apex Partners: sócios identificam inconsistências financeiras e presidente é afastado
• A Gazeta — Crise na Apex Partners: sócios decidem ir à Justiça contra Fernando Cinelli
• A Gazeta — BTG Pactual rompe contrato de distribuição com a Apex Partners
• A Gazeta — Justiça dá 30 dias para Apex pedir recuperação judicial; dívida é de quase R$ 1 bilhão (inclui decisão judicial e lista das 178 empresas)
• Folha Vitória — Apex Partners afasta presidente e diretor financeiro
• ES Hoje — Saiba o quadro societário da Apex Partners
• ES Hoje — Crise na Apex leva a distrato com BTG Pactual e alerta para investidores conferirem extratos
• Rede Notícia ES — Apex Partners afasta fundador após identificar rombo de quase R$ 1 bilhão no ES
• Sim Notícias — Caso Apex: o que já se sabe sobre rombo de quase R$ 1 bilhão
• Times Brasil | CNBC — Apex Partners, sócia da CVC, consegue proteção judicial para não pagar R$ 985 milhões em dívidas
• Times Brasil | CNBC — Caso ‘Master capixaba’: mercado vê rombo multimilionário em operação da Apex Partners para compra da CVC
• Times Brasil | CNBC — Apex Partners reconhece dívida de R$ 985 milhões e recorre à Justiça antes de recuperação judicial
• Painel Político — Crise na Apex Partners: BTG rompe, fundo trava resgates e dono da CVC é afastado
• Painel Político — Apex Partners tem tutela cautelar de 60 dias após rombo de R$ 985 milhões
• Daily Journal — Apex Partners busca proteção judicial para dívida
• BPMoney — Grupo Apex Partners reconhece dívida de R$ 985,6 milhões e afasta presidente e diretor financeiro
• VIXFeed Notícias — Apex admite dívida de R$ 985 milhões e prepara recuperação judicial
• ES Brasil — BTG rompe com a Apex e trava resgates em fundo
• Vitória News — Era uma vez uma empresa chamada Apex Partners
• Capixaba da Gema — Crise na Apex Partners chega à Justiça; entenda o caso
• Economic News Brasil — Apex reforçou poder dos fundadores antes de afastar Cinelli na crise

Sobre o crescimento do mercado de crédito estruturado
• B3 / Bora Investir — CRI, CRA, debêntures: emissões de dívida corporativa na B3 alcançam recorde em 2025
• Anbima (release oficial) — Com R$ 361,8 bilhões em ofertas, mercado de capitais encerra o 1° semestre de 2026 com volume recorde
• Capital Aberto — Anbima: mercado de capitais brasileiro tem semestre recorde
• BM&C News — Securitização ganha espaço e amplia fontes de crédito no Brasil
• Antecipa Fácil — CRA e CRI 2026: guia da securitização de recebíveis
• B3 / Bora Investir — Mercado de FIDCs alcança recorde em 2024 com patrimônio líquido de R$ 635,74 bilhões
• Capital Aberto — CVM e Anbima intensificam vigilância sobre securitizadoras

Sobre inadimplência, recuperação judicial e juros
• Serasa Experian — Recuperações judiciais avançam no Brasil e atingem 2,5 mil empresas em 2025, maior nível da série
• Reuters / InfoMoney — Recuperações extrajudiciais avançam no Brasil com pressão de juros altos
• Times Brasil | CNBC — Má gestão e juros altos empurram empresas listadas para recuperação judicial em onda sem precedentes
• Rota Jurídica — Juíza homologa plano de recuperação judicial do Grupo AgroGalaxy que envolve dívidas de R$ 5 bilhões
• CNN Brasil — Inadimplência atinge 81,7 milhões e cresce 38% em 10 anos no Brasil

Infraestrutura, capital privado e desenvolvimento: os desafios da FBCF no Brasil.


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Infraestrutura, capital privado e desenvolvimento: os desafios da FBCF no Brasil.

A Formação Bruta de Capital Fixo no Brasil: uma década de transição e desafios estruturais.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

Ao longo da última década, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) no Brasil passou por transformações significativas que revelam não apenas mudanças conjunturais, mas também uma reconfiguração estrutural do modelo de investimento nacional.

A FBCF, que representa os investimentos em ativos fixos como máquinas, equipamentos e infraestrutura, é um dos principais indicadores da capacidade produtiva de um país. Entre 2015 e 2025, sua trajetória no Brasil foi marcada por oscilações, avanços setoriais e uma crescente participação do capital privado, especialmente estrangeiro, em detrimento do investimento público direto.

A eficiência na alocação de capital em projetos de investimento é um dos pilares do desenvolvimento econômico sustentável. Quando os recursos financeiros são direcionados de forma adequada, eles não apenas maximizam o retorno para investidores e empresas, mas também geram como consequência benefícios sociais amplos que se refletem na qualidade de vida da população.

Um investimento eficiente em infraestrutura melhora a logística do país, reduz gargalos produtivos e eleva a competitividade das empresas brasileiras no mercado global. Projetos bem planejados e executados mobilizam mão de obra, estimulam cadeias produtivas e fortalecem economias locais. Esse efeito multiplicador da alocação eficiente de capital contribui para a geração de empregos, ampliando a inclusão social e favorecendo a redução das desigualdades por meio do trabalho e geração de renda.

Alocar capital de forma eficiente não é apenas uma questão de retorno para os investimentos empresariais, mas também um mecanismo de transformação social. O financiamento privado de projetos, especialmente em infraestrutura, expansão industrial, tecnologia e inovação, proporciona ganhos de produtividade e permite a adoção de novos modelos de negócios, ampliando a diversidade econômica. Esses avanços melhoram o acesso da população ao consumo e elevam os níveis de qualidade de vida. A consequência é uma sociedade mais próspera e inclusiva, capaz de reduzir desigualdades e promover desenvolvimento sustentável.

Os impostos exercem influência negativa sobre a dinâmica dos investimentos privados, pois reduzem a capacidade de investimento, comprometem a rentabilidade esperada dos projetos e diminuem a disponibilidade de capital para reinvestimento. Uma carga tributária elevada ou complexa, que direciona parcela significativa dos recursos das empresas ao pagamento de tributos, somada à burocracia e à instabilidade regulatória, restringe os recursos destinados à expansão produtiva, à inovação e à infraestrutura. Os impostos limitam, portanto, a capacidade de investimento privado de longo prazo e o incentivo econômico para as empresas assumirem riscos em setores estratégicos.

Na última década, a carga tributária sobre investimentos no Brasil oscilou entre 31% e 33% do PIB, apresentando tendência de crescimento nos anos mais recentes. Houve retração em períodos de crise, como em 2015–2016 e em 2020, seguida de retomada gradual, que culminou em 2024 com o índice de 32,32% do PIB. Em 2025, novas medidas fiscais foram anunciadas, ampliando ainda mais o peso da tributação sobre os investimentos.

O Protagonismo do Investimento Privado.

A principal mudança observada nos investimentos ao longo dos últimos anos foi o aumento contínuo da participação privada na composição da FBCF. Em 2015, o setor privado respondia por cerca de 68% dos investimentos fixos, proporção que avançou para quase 75% em 2025. Essa tendência evidencia a transição do protagonismo estatal para um modelo descentralizado e claramente mais eficiente, no qual empresas privadas, nacionais e estrangeiras, assumem papéis estratégicos na expansão da infraestrutura.

A retração fiscal do setor público, agravada por sucessivas crises políticas e econômicas, com restrições orçamentárias crescentes, abriu espaço para que o capital privado ocupasse áreas antes dominadas pelo Estado, como energia, saneamento e transportes. Esse movimento tem consolidado o investimento privado como o verdadeiro responsável pelo desenvolvimento econômico nacional.

Esse movimento foi acompanhado pela expansão das concessões e das parcerias público-privadas (PPPs), especialmente após a aprovação de marcos regulatórios setoriais, como o novo marco legal do saneamento em 2020. A crescente confiança regulatória e a abertura de mercado estimularam a entrada de fundos internacionais em setores de alta demanda e retorno, como energia renovável, telecomunicações e logística. Estima-se que o capital estrangeiro tenha representado entre 15% e 20% da FBCF ao longo da década, com destaque para os anos mais recentes, quando os aportes externos se intensificaram diante dos grandes projetos de infraestrutura e da atratividade dos ativos brasileiros.

A composição setorial da FBCF também revela mudanças significativas ao longo da última década. Os setores de energia elétrica, transportes, telecomunicações e saneamento concentraram a maior parte dos investimentos em infraestrutura. A energia liderou, com cerca de 35% da FBCF acumulada, impulsionada por projetos de geração solar e eólica e pela expansão da rede de transmissão. Em seguida vieram os transportes, com 25%, refletindo aportes em rodovias, ferrovias e portos. Telecomunicações e saneamento, com 15% e 10% respectivamente, apresentaram crescimento consistente, especialmente após avanços regulatórios e tecnológicos. Já o agronegócio, embora com participação menor (8%), manteve investimentos relevantes em armazenagem, irrigação e logística rural, reforçando sua importância para a economia nacional.

Apesar dos avanços, o Brasil ainda investe abaixo do necessário para superar seus gargalos históricos. Em 2025, os investimentos em infraestrutura devem alcançar cerca de 2,21% do PIB, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), enquanto o ideal seria próximo de 4%, patamar considerado mínimo para garantir a modernização e a expansão da infraestrutura nacional. Essa lacuna reforça a necessidade de ampliar a capacidade de financiamento, aumentar a eficiência dos projetos e assegurar que os investimentos atendam às demandas sociais e regionais do país.

A predominância do capital privado em projetos de investimento é extremamente positiva, sobretudo em função da sua melhor eficiência na alocação do capital, dinamismo e capacidade de inovação. Esse protagonismo requer atenção especial e constante à regulação e aos riscos de longo prazo, pois o ambiente nacional ainda apresenta elevado nível de incerteza.

A Formação Bruta de Capital Fixo no Brasil no Brasil é sustentada por uma composição de fontes de capital que combina eficiência privada e inovação financeira. Atualmente, é financiada por recursos próprios das empresas, crédito bancário, mercado de capitais (debêntures, fundos de investimento, FIDCs, Fiagros e fundos imobiliários), além de aportes públicos via BNDES e parcerias público-privadas (PPPs).

O mercado de capitais tem ganhado relevância no financiamento dos investimentos privados, impulsionado pela reorientação do financiamento público, e consolidou-se como um dos principais provedores de recursos para a economia real. A composição atual evidencia a crescente participação do setor privado e do capital estrangeiro no financiamento de projetos no país. Tanto o mercado de capitais quanto as parcerias público-privadas ampliaram a diversidade dos instrumentos de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva de crédito bancário e de recursos públicos. Entretanto, os projetos de investimento ainda enfrentam desafios significativos, como a elevada carga tributária e o alto custo do crédito.

Os juros altos limitam a capacidade de investimento, enquanto os períodos de queda estimulam novos projetos e ampliam a participação privada na economia. Nos últimos dez anos, a relação entre investimentos e taxas de juros no Brasil foi marcada por ciclos de expansão e retração. Entre 2015 e 2016, a Selic alcançou níveis superiores a 14% ao ano, em resposta à crise econômica e às pressões inflacionárias daquele período. Esse cenário encareceu o crédito, desestimulou investimentos produtivos e tornou o custo de capital proibitivo, inviabilizando diversos projetos.

A partir de 2017, iniciou-se um ciclo de queda gradual dos juros, que atingiram o menor nível histórico em 2020, em razão da crise sanitária, chegando a 2% ao ano. Esse movimento favoreceu a retomada dos investimentos privados, especialmente em infraestrutura. Contudo, em 2021 e 2022, como consequência das distorções provocadas pelas medidas adotadas durante a crise, a Selic voltou a subir de forma acentuada para conter as pressões inflacionárias, retornando a patamares de dois dígitos e reduzindo o ritmo dos investimentos.

A taxa Selic iniciou 2023 em 13,75% ao ano e passou por cortes graduais, encerrando dezembro em 11,75%, em sinal de confiança do Banco Central na desaceleração da inflação e como estímulo à economia. Já em 2025, o ciclo voltou a ser de alta, refletindo pressões inflacionárias decorrentes do desequilíbrio fiscal e impondo a necessidade de uma política monetária mais restritiva. A Selic foi mantida em 15,00% ao ano, patamar considerado pelo Banco Central como essencial para assegurar a convergência da inflação à meta. O cenário atual aponta para a manutenção de juros elevados por um período prolongado.

Em síntese, a evolução da FBCF no Brasil entre 2015 e 2025 revela um país em transição: menos dependente do investimento público direto, mais aberto ao capital privado e estrangeiro, e com setores estratégicos assumindo maior protagonismo. Essa trajetória indica que o futuro dos investimentos estará cada vez mais condicionado à qualidade institucional, à estabilidade regulatória e à capacidade de planejamento de longo prazo. Trata-se de uma tendência que consolida um modelo de financiamento capaz de promover crescimento sustentável, modernização produtiva e desenvolvimento econômico.

Fontes:

Trading Economics (https://pt.tradingeconomics.com/brazil/gross-fixed-capital-formation).

Ipea (https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/tag/fbcf/).

Agência Brasil (https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-06/cni-estima-que-investimento-em-infraestrutura-vai-crescer-42-em-2025).

 

 

Juros, Inflação e Crescimento: Perspectiva Econômica para 2026 e 2027.


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Juros, Inflação e Crescimento: Perspectiva Econômica para 2026 e 2027.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

A economia global se encaminha para um período de crescimento moderado e assimétrico, segundo o relatório Global Macro Outlook 2026-27, publicado pela Moody’s em novembro de 2025. O documento destaca que divergências nas políticas monetárias e mudanças nas cadeias comerciais estão moldando um cenário de expansão estável, que impõem desafios estruturais e riscos distribuídos de forma desigual entre países desenvolvidos e emergentes.

Crescimento Global: Estabilidade com Assimetria.

A projeção de crescimento mundial gira entre 2,5% e 3% ao ano, abaixo da média histórica. Economias avançadas, como Estados Unidos, Europa e Japão, enfrentam desaceleração estrutural causada por envelhecimento populacional, juros elevados e baixa produtividade. Os mercados emergentes, como Índia, México e Vietnã, por outro lado, mantêm um maior dinamismo, impulsionados por consumo interno, digitalização e foco em investimentos em infraestrutura.

Política Monetária e Inflação: Uma Relação de Causa e Controle.

A política monetária é o principal instrumento utilizado pelos bancos centrais ao redor do mundo para gerir a inflação. Ela atua por meio da regulação da taxa básica de juros, influenciando diretamente o custo do crédito, o consumo, investimento e, por consequência, os preços da economia. Quando a inflação está alta, o banco central eleva os juros para conter a demanda agregada. Quando a inflação está baixa ou a economia desacelera, os juros podem ser reduzidos para estimular a atividade.

No Brasil, essa dinâmica é regida pelo regime de metas de inflação, adotado desde 1999. O Conselho Monetário Nacional (CMN) define a meta anual de inflação, e o Banco Central do Brasil (BACEN) ajusta a taxa básica de juros (Selic) buscando manter a inflação dentro de uma faixa de tolerância. Essa meta funciona como uma âncora nominal, ou seja, uma referência, para orientar as expectativas dos agentes econômicos. Quando a meta é crível e respeitada, ela reduz incertezas, facilita o planejamento dos agentes e evita que choques temporários se transformem em inflação persistente, desancorada.

O Papel da Âncora de Inflação

A âncora de inflação tem como objetivo preservar a estabilidade macroeconômica. Ela atua sobre três frentes:

  • Expectativas dos agentes econômicos: Empresas e consumidores ajustam seus preços e salários com base na expectativa de inflação futura;
  • Credibilidade da política monetária: Quando o Banco Central demonstra compromisso com a meta, os agentes confiam que a inflação será controlada, ancorando as expectativas do mercado;
  • Eficiência da política monetária: Com expectativas bem ancoradas, o Banco Central pode agir de forma mais precisa, para evitar oscilações abruptas na taxa de juros.

A âncora pode ser enfraquecida por fatores externos à política monetária, especialmente quando o próprio governo gera pressões inflacionárias.

Mecanismos de Expansão Monetária e Seus Impactos: Como o Governo Gera Inflação.

Embora o Banco Central seja responsável por ancorar as expectativas e gerir o processo inflacionário, é importante deixar claro que o próprio governo é fonte de desequilíbrios que dificultam essa gestão da inflação por parte do BACEN. As principais formas de geração de inflação por parte do governo incluem:

  1. Expansão Monetária para Financiamento de Déficits Fiscais.

Ao gastar mais do que arrecada, o governo incorre em déficit fiscal. Para financiá-lo, recorre a emissão de dívida pública e, em casos extremos, à emissão direta de moeda, prática conhecida como seigniorage. Embora o Brasil tenha vedado a monetização direta da dívida pelo Banco Central desde a instituição do Plano Real, formas indiretas de financiamento monetário ainda ocorrem, como por exemplo:

  • Compra de títulos públicos pelo Banco Central no mercado secundário;
  • Pressão política para manter juros artificialmente baixos, facilitando o financiamento da dívida.

Esse aumento da base monetária, sem correspondente aumento da produção, eleva a quantidade de dinheiro em circulação, pressionando a demanda e os preços.

  1. Política Fiscal Expansionista sem Contrapartida de Produtividade.

Mesmo sem emissão direta de moeda, gastos públicos excessivos podem gerar inflação. Quando o governo injeta recursos na economia, seja por meio de mecanismos de transferências de renda, subsídios setoriais ou investimentos, sem respectivos ganhos de produtividade ou aumento da oferta, a demanda agregada cresce artificialmente, gerando o que se conhece por inflação de demanda.

  1. Desvalorização Cambial Induzida por Incerteza Fiscal.

A política fiscal desorganizada influência na confiança dos investidores, levando à fuga de capitais e à desvalorização monetária. O Brasil é dependente de uma série de insumos e bens importados, e essa desvalorização encarece a importação de produtos estrangeiros, gerando inflação de custos internamente.

  1. Intervenção Estatal em Preços Administrados.

O governo controla diretamente ou indiretamente os preços de diversos bens e serviços da economia, como combustíveis, energia elétrica e transporte público. Ao intervir na economia e reprimir preços artificialmente, o governo gera distorções e ineficiências no mercado. Em muitos casos, cria-se uma inflação “represada” que, quando liberada, gera choques inflacionários abruptos.

  1. Subsídios e Incentivos Fiscais Mal Direcionados.

Subsídios setoriais e incentivos fiscais, quando concedidos sem planejamento bem fundamentado, critérios técnicos rígidos ou sem a sustentação orçamentária, distorcem os preços relativos e criam ineficiências os mercados. Além disso, aumentam o gasto público ineficientes e reduzem a atividade econômica e respectivamente a arrecadação, ampliando o déficit fiscal e a pressão inflacionária.

  1. Aumento de Impostos Indiretos.

Tributos como ICMS, PIS/COFINS e IPI incidem diretamente sobre o consumo. Quando o governo aumenta as alíquotas destes impostos para compensar os déficits fiscais causados por suas políticas equivocadas, o impacto é repassado aos preços finais, elevando a inflação.

Estimativas da Taxa Neutra e o Caso Brasileiro.

Estudos recentes da Rio Bravo Investimentos reforçam a complexidade da política monetária brasileira. Em junho de 2025, o economista José Alfaix indicou que, mesmo em cenário considerado como ideal, a taxa Selic precisaria estar em torno de 15% para conter pressões inflacionárias e manter a estabilidade. Outro estudo mais recente da mesma casa estima que a taxa de juros real neutra no Brasil seria de 5,7%, o que implicaria uma Selic nominal de aproximadamente 9%, mesmo com inflação supostamente controlada.

Essas estimativas indicam que o Brasil parece exigir juros estruturalmente mais altos, um reflexo dos seus riscos fiscais, sua baixa credibilidade institucional e vulnerabilidades cambiais. Comparativamente, outras instituições nacionais, como os bancos Itaú, BTG Pactual e a XP Investimentos, atualmente projetam taxas neutras em uma faixa entre 4% e 5%, e parecem assumir avanços fiscais e melhora nos níveis de confiança, mesmo com a ausência de sinais claros por parte do governo neste sentido.

Definição do Custo de Capital: Bancos Centrais vs Livre Mercado.

A definição do custo de capital, ou seja, da taxa de juros, pelos bancos centrais, em detrimento da precificação pelo livre mercado, pode gerar distorções significativas. Embora aparentemente necessária em regimes monetários considerados modernos, essa prática de definição centralizada do preço do dinheiro tem efeitos negativos quando mal calibrada.

A precificação de capital é o processo de determinar o custo de oportunidade de um investimento, ou seja, o retorno mínimo necessário para justificar um projeto. O modelo mais conhecido e mais aceito pelo mercado é o CAPM (Capital Asset Pricing Model), que calcula o retorno esperado de um ativo com base em seu risco sistemático, combinando a taxa de juros livre de risco com um prêmio de risco.

  • Alocação ineficiente de recursos: Juros artificialmente baixos incentivam investimentos em projetos de baixa produtividade, gerando bolhas de ativos;
  • Alavancagem excessiva: Com crédito barato induzido pelo BACEN, empresas e consumidores se endividam além do razoável, aumentando o risco sistêmico;
  • Desincentivo à poupança: Juros reais negativos, por outro lado, reduzem o retorno da poupança, comprometendo o financiamento doméstico de longo prazo;
  • Sinalização econômica distorcida: A intervenção do BACEN na definição dos juros pode gerar distorções no mercado, fazendo o custo do capital perder a sua função de sinalizar escassez de recursos e risco;
  • Volatilidade cíclica: Estímulos monetários prolongam artificialmente os ciclos de expansão, gerando correções abruptas;
  • Dependência institucional: Economias que se acostumam com juros definidos centralmente tendem a perder disciplina fiscal, confiando excessivamente em estímulos monetários.

Reconfiguração Comercial e Perspectivas Regionais

A fragmentação comercial global se intensificou, com destaque para o desacoplamento entre EUA e China. Empresas buscam diversificar fornecedores, beneficiando países como México, Índia e Vietnã. A transição exige investimentos em infraestrutura e estabilidade política, podendo elevar custos no curto prazo, mas aumentar a resiliência no longo.

No Brasil, o crescimento é gradual, sustentado por exportações agrícolas e minerais, limitado por desafios fiscais e institucionais. A política monetária restritiva, combinada com a necessidade de reformas estruturais, define o ritmo mais lento para uma possível recuperação.

Conclusão

A interação entre política monetária, inflação e crescimento revela um cenário complexo, tanto global quanto nacional. O Brasil, em particular, enfrenta o desafio de equilibrar credibilidade fiscal com estímulo à atividade, em um ambiente de juros estruturalmente elevados e impostos cada vez mais altos, desincentivando investimentos. A coordenação entre política monetária e fiscal será decisiva para garantir uma estabilidade econômica mínima para tentar viabilizar um crescimento sustentável nos próximos anos.

Referências:

  • Moody’s Analytics – Global Macro Outlook 2026-27 (Nov/2025)
  • Rio Bravo Investimentos – Estudo sobre taxa neutra e Selic ideal (Jun/2025)
  • Banco Central do Brasil – Regime de Metas de Inflação
  • Instituto Assaf – Análise conceitual do custo de capital
  • Money Times – Entrevista com José Alfaix (Rio Bravo)

Gestão de Portfólios em M&A: Valor Gerado com IA


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Tecnologia Aplicada em M&A

Gestão de Portfólios em M&A: Valor Gerado com IA.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

 

Aplicação da IA na Gestão de Portfólios

A incorporação da inteligência artificial na gestão de portfólios oferece uma abordagem mais dinâmica e preditiva, transformando a maneira como as empresas planejam e executam transações corporativas. Neste contexto, a IA ganha espaço como uma ferramenta para otimizar a alocação de recursos e avaliar o desempenho, subsidiando decisões cada vez mais orientadas por dados.

Aplicar IA ao processo o torna mais eficiente. Acompanhar o desempenho das empresas ou ativos que compõem a carteira de investimentos, antecipar riscos e identificar o momento mais oportuno para movimentações estratégicas — tanto de investimento quanto de desinvestimento — possibilita acelerar resultados e elevar a qualidade das decisões, favorecendo a capturar valor de forma mais rápida e com menor exposição a riscos.

Entre suas principais aplicações da IA na gestão de portfólios, quatro áreas contribuem diretamente para a geração de valor e a tomada de decisão estratégica: (i) avaliação dinâmica de desempenho, (ii) Simulações de cenários e modelagem preditiva, (iii) Identificação de oportunidades de crescimento, e (iv) Otimização da alocação de capital.

A utilização de sistemas inteligentes para o monitoramento contínuo dos indicadores de desempenho (Key Performance Indicators – KPIs) das unidades de negócio sustenta decisões relacionadas à expansão, ao desinvestimento ou à reestruturação, assegurando maior capacidade de resposta às mudanças nos ambientes interno e externo.

Ferramentas de IA realizam simulações avançadas que incorporam a dinâmica de múltiplas variáveis — econômicas, regulatórias e competitivas —, oferecendo suporte a decisões mais bem fundamentadas em cenários de alta incerteza, além de antecipar riscos e permitir o teste de estratégias antes de sua implementação.

Outra aplicação da inteligência artificial está na identificação de oportunidades de crescimento. Ao analisar dados sobre tendências de mercado, comportamento dos consumidores e movimentações da concorrência, a IA revela possibilidades de investimento, parcerias estratégicas e aquisições. Essa leitura avançada do ambiente competitivo potencializa a capacidade de inovação e impulsiona a expansão dos negócios.

Os algoritmos avançados da IA contribuem para uma distribuição mais eficiente dos recursos, equilibrando risco e retorno entre diferentes ativos e empresas do portfólio. Orientada pela otimização da alocação de capital, a IA contribui para a definição de posições de investimento visando sustentar o crescimento e a geração de valor ao longo do tempo.

Benefícios da Adoção da IA em Transações Corporativas

A adoção de ferramentas de inteligência artificial em transações de fusões e aquisições não se limita a ganho de eficiência, mas proporcionam benefícios adicionais que podem redefinir o sucesso de uma transação.

Com a automação de tarefas devido a aplicação de IA, processos que antes levavam meses agora podem ser concluídos em questão de semanas, reduzindo a dependência de grandes equipes, diminuindo custos transacionais, e permitindo que empresas capitalizem oportunidades com maior rapidez.

O ganho em termos de escalabilidade é outro benefício com potencial transformador em operações de M&A. Empresas podem avaliar de forma mais efetiva múltiplos alvos simultaneamente, ampliando seu alcance estratégico. Além do ganho de velocidade e agilidade, redução de custos, e escalabilidade, a IA também minimiza a margem de erro humano no processo, com maior precisão analítica e análises mais robustas e confiáveis.

Outra aplicação relevante dos sistemas inteligentes está na detecção de riscos regulatórios e de compliance. O monitoramento contínuo de legislações locais e internacionais, aliado à antecipação de barreiras regulatórias ou riscos de antitruste, reduz significativamente a probabilidade de sanções e de atrasos na aprovação de transações.

Desafios e Considerações Éticas sobra a Aplicação de IA em M&A

Apesar dos significativos avanços da inteligência artificial, a integração da IA em processos de M&A traz desafios que não devem ser ignorados. Uma das questões mais debatidas é a governança algorítmica. É essencial assegurar que os modelos sejam transparentes, auditáveis e livres de vieses.

A adoção da IA, de forma geral, deve estar acompanhada de mecanismos robustos de governança. Embora a tecnologia promova eficiência e agilize o processo de M&A como um todo, ela também exige transparência, garantias e rastreabilidade, de modo que as decisões sejam tomadas com pleno conhecimento das premissas e possam ser auditadas sempre que necessário.

Garantir a segurança dos dados e das informações das partes envolvidas em uma operação é outro desafio crucial que não pode ser subestimado. O tratamento de informações sensíveis e documentos confidenciais exige protocolos rigorosos de proteção e conformidade regulatória. A utilização de ferramentas seguras e devidamente homologadas é essencial para evitar a exposição de dados corporativos, prevenir vazamentos de informações estratégicas e preservar, inclusive, a própria confidencialidade das negociações em andamento.

O fator humano permanece como um desafio relevante para a adoção mais ampla da inteligência artificial. A formação de profissionais capacitados para desenvolver, implementar e aplicar essas tecnologias é essencial para ampliar seu uso. A escassez de talentos com fluência em IA ainda limita sua aplicação nas empresas, sendo a ausência de competências específicas um dos principais entraves aos investimentos na área.

O Novo Papel da Liderança em Fusões e Aquisições com IA

Se o M&A sempre foi uma arte, a IA está adicionando uma nova paleta de cores, e os líderes que sabem pintar com ela estão assumindo o protagonismo nesta nova era.

Na nova era agêntica, os profissionais envolvidos em transações de M&A precisam desenvolver competências que vão além da análise financeira. A liderança aumentada por IA exige o desenvolvimento da capacidade de definir adequadamente problemas complexos e fluência tecnológica para estruturar as melhores soluções. Neste sentido, o papel do assessor de M&A está se transformando: de executor técnico para orquestrador de agentes inteligentes, fazendo uso de ferramentas tecnológicas poderosas de IA para suportar decisões estratégicas.

A inteligência artificial está se tornando uma realidade concreta no universo de M&A. Ela não substitui o julgamento humano, mas o amplifica. Ao automatizar tarefas repetitivas, oferecer insights preditivos e acelerar processos, a IA permite que os profissionais de M&A se concentrem no que realmente importa: criar valor sustentável, alinhar culturas e construir estratégias vencedoras, permitindo maior eficiência e produtividade.

Empresas que adotam uma abordagem proativa, investindo em governança, capacitação e integração tecnológica, estão se posicionando como “Frontier Firms”, termo cunhado pela Microsoft para definir organizações que operam com IA como uma camada avançada para decisões estratégicas. À medida que avançamos, as empresas que souberem combinar inteligência humana com inteligência artificial estarão mais bem posicionadas para navegar a complexidade das transações corporativas e capturar oportunidades transformadoras.

Compliance: Um Alicerce Estratégico da Valorização Empresarial.


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Compliance: Um Alicerce Estratégico da Valorização Empresarial.

Daniel Rivera Alves
Sócio Fundador da Elit Capital

Em um mercado cada vez mais competitivo e orientado por critérios de transparência, governança e sustentabilidade, o compliance não representa simplesmente uma obrigação regulatória, mas um diferencial de mercado. Mais do que cumprir normas, trata-se de incorporar disciplina, organização, e credibilidade à gestão — elementos que reduzem o nível de incerteza e elevam a previsibilidade dos resultados, influenciando na valorização do negócio e na atração de capital.

O compliance é um sistema de governança corporativa voltado à conformidade legal e regulatória, que visa assegurar que a empresa atue de acordo com leis, normas externas e suas políticas internas. Além de proporcionar boas práticas na gestão de riscos jurídicos, o compliance tem o potencial de difundir uma cultura ética, fortalecer a reputação institucional e contribuir para a sustentabilidade e perenidade dos negócios.

Empresas com governança clara, relatórios consistentes e gestão eficaz de riscos reputacionais tornam-se mais atrativas para investidores — sejam eles estratégicos ou financeiros. Nesse contexto, o compliance contínuo pode reduzir o custo de capital ao proporcionar maior previsibilidade do fluxo de caixa e maior confiança no desempenho futuro da organização.

O modelo reativo de compliance, baseado em respostas pontuais a eventos isolados, não atende de forma plena as exigências do mercado. Em contraste, o compliance contínuo atua de forma preventiva, fortalecendo a estrutura organizacional e mitigando riscos de forma sistemática. Trata-se de uma abordagem madura e profissional, que mantém a empresa sempre pronta para auditorias, processos de Due Diligence em operações de M&A e negociações com investidores — sem improvisos.

A organização documental, proporcionada por uma estratégia de compliance bem planejada, acelera etapas críticas como a Due Diligence, reduzindo o tempo entre o contato inicial e o fechamento da operação. Além disso, evita contingências fiscais, jurídicas ou trabalhistas que poderiam comprometer a negociação ou desvalorizar o negócio, assegurando uma transação mais ágil e eficiente.

Para empresários que consideram se preparar para atrair investidores, o compliance é uma ferramenta poderosa na construção e preservação da reputação e do legado. Ele reforça a percepção de que a empresa é bem gerida, responsável e preparada para uma transição estável, fatores que influenciam diretamente a percepção de valor sobre o negócio e a probabilidade de sucesso da transação.

A credibilidade nas relações constrói valor empresarial. Investidores e parceiros estratégicos valorizam empresas estáveis, que gerenciam seus riscos de forma consistente e sistemática. O compliance transmite confiança desde o primeiro contato, reforçando a imagem de solidez e profissionalismo. Esta credibilidade tende a se refletir em múltiplos de avaliação mais elevados, proporcionando condições de financiamento mais favoráveis e maior atratividade em processos de M&A, impulsionada pela transparência operacional e previsibilidade dos resultados.

Empresas que mantêm boas práticas de conformidade de forma contínua aumentam significativamente suas chances de atrair capital e concluir com êxito operações estratégicas. Por outro lado, negócios sem estrutura de compliance enfrentaram atrasos, renegociações e até cancelamentos, especialmente em setores regulados, onde a conformidade é um pré-requisito.

A estruturação de processos de governança envolve a identificação falhas críticas e a organização da documentação necessária para garantir conformidade. A implementação de uma estratégia eficaz de compliance exige o envolvimento ativo da liderança na implementação de políticas de gestão de risco e proteção de dados, desenvolvimento de controles financeiros e relatórios consistentes, realização de auditorias internas e revisões legais periódicas, além de supervisão independente.

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